segunda-feira, 28 de dezembro de 2009


joguei a minha âncora no mar
depois da tempestade que passei
até pensei que fosse me afogar
foi quando a terra firme eu avistei
tempo de calor e esperança

encontrei uma flor
será que é
o meu amor?
encontrei a flor
será que é
o meu amor?

será que dessa vez o coração vai se apegar
ou será mais um estado de euforia ou de ilusão
só o tempo vai dizer
quanto tempo hei de ficar
se é tempo de partir e navegar

(luís carlinhos e rafael pondé)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultura e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente o reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Viva o povo brasileiro

- Tu sabes muito bem o que eu quis dizer. O que eu quis dizer é que meu amor por ti nunca morrerá e te acompanhará sempre. E o teu, sempre me acompanhará.
- Isto é que me parece uma insensatez, uma estupidez. Se eu te amo e tu me amas, se nunca nos aconteceu semelhante paixão, semelhante identidade, semelhante fervor, semelhante êxtase, por que, a troco de quê, nos separaremos?
(Os olhos de Maria da Fé se encheram d'água, uma lágrima lhe escorreu até a boca...)
- Tu sabes - disse ela, muito baixinho, olhando para o lado -, eu mesma, às vezes, penso que não existo, penso que sou uma lenda, como dizem que sou.
- Isto não faz sentido, isto não tem pé nem cabeça, é claro que não és uma lenda, estás aqui junto de mim, és minhas mulher, és minha vida, és...
- Não sou tua vida, sou teu amor. Vê bem que, para que pudéssemos viver juntos, um de nós teria de deixar de ser quem é. Não quero deixar de ser quem sou e fazer o que faço, nem que tu deixes de ser quem és e fazer o que fazes.
- Continuo a dizer que isto não faz sentido.
- Eu amo quem tu és, não aquele em que te transformarias. E tu amas quem sou, não aquela em que eu me transformaria."

[Conversa entre Maria da Fé e Patrício Macário em "Viva o Povo Brasileiro" de João Ubaldo Ribeiro]

Aprendiz de Feiticeiro

"aprendi quando criança que além de tudo balança
esse nosso mundo cão
aprendi que quem não dança, já dançou na sua infância
senão rock foi baião
aprendi da importância de não dar muita importância
ficar com os meus pés no chão
aprendi que viver cansa, mesmo vivendo na França
mesmo indo de avião
aprendi que a desavença, é por que sempre alguém pensa
que ninguém mais tem razão

aprendi que tudo passa, tomando chá ou cachaça
tomando champanhe ou não
aprendi que a descrença, a desconfiança e a doença
são partes da maldição
aprendi que a ignorância, a sordidez e a ganância
são lavas desse vulcão
aprendi que essa fumaça a minha janela embaça
por fora... por dentro, não!"

Paulo Leminski

"podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano
eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano"
"Amor, então
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva
ou em rima..."
"eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois"
"isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além"
"não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino"
"eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha"
"esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer

esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir

esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir"

A hora da estrela

Não haveria um fragmento de texto que fosse mais apropriado ao primeiro post.

"Pensando bem: Quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato. É quando entro em contato com forças interiores minhas, encontro através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro."
[Rodrigo S. M. - por Clarisse Lispector em "A Hora da Estrela"]